Inspiração

O poema mais lindo que já li (e que você precisa ler também)

setembro 28, 2015
Cânticos - Cecília Meireles - Invertisa

Desde que li esse poema pela primeira vez, releio toda semana para ter uma dose de inspiração.

Você com certeza conhece a Cecília Meireles, e é possível que já tenha ouvido falar dos seus Cânticos – se não, eu tenho a alegria de apresentar aqui meus favoritos (que são praticamente todos). Leia com atenção (e intenção) e sinta a transformação a cada palavra:

I

Não queiras ter Pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda a parte
Te ponha em tudo,
Como Deus.

II

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens…
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade…
É a eternidade.
És tu.

III

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a terra.
Onde termina o Céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso.
Sem pensar.

IV

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?

V

Esse teu corpo é um fardo.
È uma grande montanha abafando-te.
Não te deixando sentir o vento livre
Do Infinito.
Quebra o teu corpo em cavernas
Para dentro de ti rugir
A força livre do ar.
Destrói mais essa prisão de pedra.
Faze-te recepo.
Âmbito.
Espaço.
Amplia-te.
Sê o grande sopro
Que circula…

VI

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

VII

Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Amor sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Por não esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo…

VIII

Não digas: “O mundo é belo”
Quando foi que viste o mundo?

Não digas: “O amor é triste”.
Que é que tu conheces do amor?

Não dias: “A vida é rápida”.
Como foi que mediste a vida?

Não digas: “Eu sofro”.
Que é que dentro de ti és tu?

Que foi que te ensinaram
Que era sofrer?

IX

Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
Há tanto tempo,
Pelo teu corpo, que enlouqueceu.

(…)

XI

Vê, formaram-se todas as águas
Todas as nuvens.
Os ventos virão de todos os nortes.
Os dilúvios cairão sobre os mundos.
Tu não morrerás.
Não há nuvens que te escureçam.
Não há ventos que te desfaçam.
Não há águas que te afoguem.
Tu és a própria nuvem.
O próprio vento.
A própria chuva sem fim…

XII

Não fales as palavras dos homens.
Palavras com vida humana.
Que nascem, que crescem, que morrem.
Faze a tua palavra perfeita.
Dize somente coisas eternas.
Vive em todos os tempos
Pela tua voz.
Sê o que o ouvido nunca esquece.
Repete-te para sempre.
Em todos os corações.
Em todos os mundos.

(…)

XV

Não queiras ser.
Não ambiciones.
Não marques limites ao eu caminho.
A Eternidade é muito longe.
E dentro dele tu te moves, eterno.
Sê o que vem e o que vau.
Sem forma.
Sem termo.
Como uma grande luz difusa.
Filha de nenhum sol.

(…)

XVIII

Quando os homens na terra sofrerem
Sofrimento do corpo,
Sofrimento da alma,
Tu não sofrerás.
Quando os olhos chorarem
E as mãos e quebrarem de angústia
E a voz se acabar no rogo e na ameaça.,
Quando os homens viverem,
Tu não viverás.
Quando os homens morrerem na vida,
Quando os homens nascerem na morte,
Na vida e na morte nunca mais
Nunca mais tu não morrerás.

(…)

XXIII

Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam,
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.

(…)

XXV

Só o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre a tua alma nas tuas mãos
E abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem este último gesto!

 

XXVI

O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos.
Esquecidos…
Enganados…
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor…

 

Não é maravilhoso? Meus favoritos são o IV, VI e o IX, e os de vocês? Procuro reler esse poema sempre que preciso me inspirar, e espero que vocês tenham amado ele tanto quando eu amo! Vocês encontram os Cânticos completos e outras poesias lindas aqui! <3

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2 Comentários

  • Reply Julia outubro 23, 2015 at 12:16 am

    Amei sim viu? De verdade, e salvei tanto o texto quanto seu blog nos meus favoritos. Amo seu estilo de vida e tento sempre me incluir nele mas a falta de dinheiro complica, alguma dica pra mim? Beijossssss, grande inspiração

  • Reply Ana Laura Leme setembro 9, 2016 at 3:28 am

    Amei ,incrível a força das palavras dentro da gente mesmo <3

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